Por F J Caminha
Minha mãe já me dizia:
– Meu filho, a ignorância nos protege, o problema é que eu já sei demais.
E completava:
– Meu fi’lho, fazer a pergunta é mais importante do que a resposta. Diante dos desafios eu me questiono e não tomo decisões movida por emoções.
Além disso, diante das dificuldades da vida, ela conversava com os próprios pensamentos e interrogava seus sentimentos, sempre a fazer perguntas a si mesma, antes de agir. Ou seja, em muitas situações da nossa vida é melhor não ter conhecimento dos fatos.
Eu costumo dizer:
– Quem sabe menos, sofre menos.
Mas o problema é que na vida, principalmente na política chega um momento em que não é mais possível “não saber”. E quando se sabe demais, perde-se o abrigo da inocência.
Vamos trazer essa sabedoria para o campo da nossa política local. Nessa área não me considero leigo, tive a oportunidade de fundar um partido nacional e de exercer quatro mandatos eletivos.
Depois que entendi certas coisas sobre poder, interesse, manipulação, fingimento, ego, medo, amor, ódio e vingança, não gozo mais do benefício da ignorância.
É evidente que no jogo da conquista e da manutenção do poder não tratamos de ideais, mas sim de interesses e são esses que aproximam inimigos afastam os amigos.
Lembro de um amigo, numa reunião política, que resumiu tudo com uma frase simples e brutal:
Para perder um amigo basta uma coisa: Falar a verdade.
A esposa de um amigo descobriu que ele estava a traindo, e então, o chamou para saber toda verdade, e assim o interpelou:
– Paulo, por favor, fale a verdade, me conte tudo. Quero saber de tudo que aconteceu.
Ele assim respondeu:
– Meu amor, te amo demais, por isso, você não está preparada para ouvir a verdade.
Na política a verdade é ainda mais poderosa e perigosa. Se você fala a verdade perde a eleição e ainda pode perder o bem maior: A confiança. Assim, o jogo da política se organiza através de blefes, dissimulações, traições silenciosas e movimentos calculados.
Há quem diga que palavras não falam, mas movimentos sim. Aprendi com o professor Adelino Maltez da Universidade de Lisboa, que o verdadeiro discurso do político está no intervalo entre as palavras.
Logicamente que na vida os movimentos são em função de dinheiro, poder, sexo, amor, ódio, vingança, influência ou mesmo autorrealização. O poder fascina, corrompe, organiza comportamentos, alimenta o ego e impõe vontades aos liderados.
Dos interesses descritos acima vou destacar um deles, a vingança como motivação para a conquista do poder na disputa nas eleições do Ceará em outubro desse ano.
Vamos começar com uma frase inspiradora atribuída ao escritor francês do século XIX, Alexis de Tocqueville:
- Em política, a comunhão de ódios é quase sempre a base das amizades.
Para escrever sobre vingança temos que falar de amor e ódio. O amor é seletivo e fica restrito aos íntimos no círculo da família e dos amigos, mas o ódio é expansivo. Ele cria alianças improváveis, transforma adversários em parceiros e constrói pontes onde antes havia muros.
É o velho jargão:
O inimigo do meu inimigo é meu amigo. Já o ódio impulsionado pelo desejo da vingança extrapola os laços do amor une inimigos por ódio ao inimigo comum.
Agora os novos aliados e os atuais amigos não possuem mais falhas e nem defeitos. E os antigos aliados? Se não as possuem inventa-se da mesma forma que já foi feito com os adversários de outrora.
No Ceará, o cenário parece desenhado por essa lógica. Não se trata de afinidade, nem de ideologia e nem de respeito. Trata-se de convergência de ressentimentos. Uma aliança construída menos pelo que se ama e mais pelo que se odeia.
Mas há um detalhe que a história insiste em repetir:
O ódio une rápido e desmancha mais rápido ainda.
Depois da vitória, se vier, começam os conflitos, as disputas internas, a guerra por espaço político. Sabe por quê? Porque os mesmos sentimentos que une para conquistar, não serve aos novos interesses. O ódio e vingança organizam a entrada para a conquistar do poder, mas desorganiza na chegada do poder.
Está evidente que a eleição para governador do estado do Ceará está polarizada assim, o grupo “A” odeia o grupo “B” e vice-versa. E do ódio nasce a vingança.
Como sabemos um significativo grupo político, antes aliado do governo da “esquerda”, rompeu de vez a aliança e foi em busca de união com a “direita”. Essa aliança não está ocorrendo por afinidade, nem amizade, e sim, por comunhão de ódios, como bem pontuou Tocqueville.
O desgaste natural do poder terá que agora enfrentar uma aliança de ódio fermentada pelo desejo de vingança. Alguém já chegou até dizer:
– Para derrotá-los e pelo projeto eu como até merda e podem mandar meu pote que como prazer.
E é aí que lembro de Alexandre Dumas, em O Conde de Monte Cristo:
— A maior vitória não é punir o inimigo, mas não se tornar igual a ele.
Agora volto à minha mãe. Ela estava certa. A ignorância nos protege, mas não porque nos poupa da verdade, e sim porque nos poupa de nós mesmos.
Quando a gente entende demais o jogo, corre o risco de se tornar parte dele, como justificar o injustificável, odiar com elegância e trair com estratégia.
Talvez o verdadeiro sábio não seja o que sabe tudo, mas o que, mesmo sabendo, escolhe não se contaminar.
E talvez a maior pergunta que minha mãe faria, não seja sobre quem vai vencer a eleição. Mas esta:
– Meu filho, no meio de tudo isso, você ainda sabe quem você é?



